quarta-feira, 9 de março de 2011

A quem possa interessar

Inicio este blogue porque á pouco tempo dei por mim a vaguear por um projecto  que achei deveras interessante e pertinente. Os filhos da guerra colonial. Depois de alguma leitura dei por mim a sorrir porque finalmente alguém tinha tomado a iniciativa de dar voz aos «Danos Colaterais» da nossa guerra colonial. Aos filhos daqueles que voltaram da guerra.
Considero-me um deles e auto-denominei filha da guerra. Penso que tudo o que vivi nos meus 37 anos foi delineado e marcado por aquilo que o meu pai viveu no ultramar.
O meu falecido pai, que muito amo e de quem sinto muita saudade foi um orgulhoso fuzileiro. Aos 20 anos foi para os fuzileiros e concluiu o curso de fuzileiro especial. Sem saber estaria a entrar num caminho sem retorno que destruiria o homem que era.
Sou da opinião que na vida são nos apresentados sempre duas vias, dois caminhos á escolha, contudo não sabemos que tipo de caminho no espera quando efectuamos a escolha.
Para o meu pai e infelizmente esperava-o um caminho cheio de pedras, rochoso, seco e muito muito duro.
Não sei ao certo o que terá feito por terras do ultramar, sinto que não foram actos nada agradáveis e pouco dignos de memórias futuras. Penso que se pudesse fazer «tabua raza», se pudesse ter voltado atrás o teria feito.
Dou por mim a digitar o seu nome na internet e a saber de actos e operações em que participou. Dou por mim magoada e triste. A imaginar o que terá passado no seu coração e na sua mente naquele momento, num momento em que teve de matar para não morrer. Em que cometeu aquilo que tanto abomino que é tirar a vida de alguém, seja por que razão for. Penso que teve que o fazer, que se habituou, recalcou??? o passado?
O meu pai voltou eu ainda nem era nascida, mas vivi os horrores da guerra toda a minha infância.
Demorei, devido a minha inocência de criança, a compreender o porque de certas atitudes, como qualquer criança perguntava no silencio a mim mesma o que teria eu feito para aquele dia ter acontecido. Como poderia eu melhorar para aqueles dias não se repetirem?
Mas as respostas chegaram com o tempo, com a idade.
Conversando com alguns amigos noto que tenho memórias de situações desde que tinha 3 anos.
Muitos não acreditam que me lembre de momentos dessa epoca, mas a verdade é que recordo como se fosse hoje. Talvez por terem sido tão traumáticos.
Lembro-me de ter cerca de 3 anos ou 4 e de ouvir o meu pai chegar a casa de madrugada e dizer á minha mãe para se levantar vestir e sair os mais depressa que pudesse comigo e com os meus irmãos. Senão morreriamos todos. «Mato-vos a todos, saiam depressa» foi uma frase que nunca esqueci. Sair de casa em panico, a correr a altas horas da madrugada. Sem entender porque.
Valia-nos uma vizinha, que ja faleceu, mas onde quer que esteja terá para sempre a minha gratidão pelo amor carinho e por ser a unica pessoa que nos ajudava nestas alturas.
Lembro-me de noites iguais em que fugiamos e ficavamos no banco do jardim municipal a ver a minha mãe chorar de forma inconsolavel.
Certas noites o meu pai acordava a gritar de mais um dos seus constantes pesadelos e fumava incessantemente, todo suado. Eu tremia de medo na cama, sentia os meus irmãos acordados, mas nenhum de nós se atrevia a falar. A minha mãe sentava-se aterrorizada perto da minha cama e eu sentia-me obrigada a ficar acordada para controlar tudo o que pudesse acontecer.
Acordava em panico quando via que tinha adormecido. Foram muitas noites assim.
Por alguma razão, que nunca entendi, o meu pai nunca me bateu e sempre parou quando lhe pedia para o fazer.
Dei por mim a passar a infância entre o meu pai com facas ou garrafas partidas e o resto da minha familia.
Muitas vezes a segurar a lamina na minha mão enquanto fazia um jogo psicologico desgastante e traumatizante. Felizmente resultaram sempre.